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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A Bienal do grito contido - Antonio Gonçalves Filho

A sétima edição da Bienal do Mercosul mostra suas melhores obras num museu


velha oposição museu-computador fica evidente na 7ª edição da Bienal do Mercosul, aberta até 29 de novembro em Porto Alegre. Dividida em sete exposições e com mais de 200 artistas participantes de países da América Latina, América do Norte e Europa, a mostra deixa claro que o mundo processado do computador - com sua fome de apropriação de obras - nem sempre resulta tão atraente quanto peças de arte corpóreas. Elas são as verdadeiras estrelas da bienal, não por acaso acomodadas pela curadora Victoria Noorthoorn num museu, o Margs (Museu de Arte do Rio Grande do Sul), dentro da mostra Desenho de Ideias, que reúne desde um precursor do expressionismo, o belga Ensor, colocado ao lado de Goeldi, até contemporâneos como Iran do Espírito Santo. É, de longe, a melhor das sete exposições da bienal sulista, que inclui vídeos, performances, teatro, peças radiofônicas, instalações e até um exercício coletivo de pichação com direito a críticas ao presidente Lula.

Aberta na sexta-feira pelo ministro da Cultura, Juca Ferreira, que levou ao palco o novo presidente da Bienal de São Paulo, Heitor Martins, promovendo o intercâmbio entre as duas mostras, a Bienal do Mercosul é marcada pelo reconhecimento de que estamos submetidos a uma antiga herança, como observou o historiador e crítico alemão Hans Belting. Até onde a vista pode alcançar, ainda são as imagens no interior do museu as que adquirem estatuto de arte, ao passo que as de fora estão condenadas a perseguir esse estatuto. Essa divisão, baseada no preceito de seleção, não foi provocada pelos espectadores, evoque-se. Ao selecionar grandes obras corpóreas para a exposição do Margs, os curadores da Bienal sabiam que as imateriais teriam dificuldades para se impor. Prova disso está bem ao lado do Margs, na mostra Projetáveis, instalada no prédio do Santander Cultural, que se propõe a explorar a materialização e localização específica de projetos que utilizam a www como canal. Um fiasco de imagens em movimento.

Numa oposição produtiva, algumas obras de mostras como Ficções do Invisível, Biografias Coletivas e Absurdo, instaladas nos armazéns do cais de Porto Alegre, não dependem da experiência do lugar para serem legitimadas. Mas são poucas entre tantas que traduzem a "estética da impermanência" de Harold Rosenberg.




quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A capital das monstruosidades, por Voltaire Schilling

A revista Panorama Crítico foi  criada com o objetivo de criar, de modo indepentende, um espaço aberto ao debate crítico. Dentro desse objetivo, colocamos aqui o texto de Voltaire Shilling na íntegra, publicado no último dia 25 de outubro e debatido na rádio hoje (dia 28) Gauchá FM, com os mais diversos profissionais e pensadores que atuam na cultura. Convidamos a todos (que já tenham lido o texto, assim como aqueles que não tenham lido ainda) os leitores da revista e do blog a realizarem seus comentários sobre o texto como forma de enriquecer e pensar sobre as aberturas que este texto polêmico gerou nos últimos dias.


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A capital das monstruosidades, por Voltaire Schilling*

Desde que Marcel Duchamp, um ex-artista cubista, francês de nascimento que escolheu os Estados Unidos como residência, mandou um urinol para ser exposto numa galeria de Nova York e, quase em seguida, em 1915, montou uma roda de bicicleta equilibrada sobre um pequeno banco e a fez passar por obra de arte, abriu-se a Caixa de Pandora dos horrores estéticos que a partir de então invadiram o cenário das exposições de arte.
Para acentuar ainda mais o seu deboche para com o que até então se entendia como arte, Duchamp, um pândego, um moleque crescido, pintou um belo bigode numa imagem da Mona Lisa de Leonardo da Vinci, ícone da pintura ocidental. Como ele não foi confinado num manicômio nem encarcerado por ofensas ao patrimônio estético (interessante observar que nunca o Direito Penal preocupou-se em classificar como crime hediondo quem de propósito fabricasse a feiura!), parte da vanguarda artística ocidental tomou-o como um profeta dos novos tempos. Estabeleceu-se então um deus nos acuda.
Todavia, o que particularmente nos chama a atenção como cidadãos desta nossa capital, que mais uma vez se vê intimidada pelo flagelo de uma nova “instalação”, é a notável concentração de “esculturas” e “monumentos” absolutamente espantosos. Um pior do que o outro.
Nosso calvário começa por aquela mandada erguer pelos burgueses do bairro Moinhos de Vento para celebrar sua vitória em 1964 que se encontra no Parcão (homenagem ao marechal Castello Branco, mas que também pode referir-se ao desembarque de um extraterrestre), chegando ao hediondo “timão” situado na rótula que antecede o museu Iberê Camargo.
Aliás, o primeiro “timão”, que parecia ter esterco como matéria original da sua composição, foi destruído pelos vileiros do Morro Santa Tereza, certamente indignados em terem-no nas vizinhanças (sofriam de uma injusta punição, além da pobreza tinham que encarar diariamente o exemplo da medonhice).
Este colar sem fim de mau gosto que nos assola ainda é composto pelo “cuiódromo”, encravado na rótula da Praça da Harmonia (obra que por igual pode ser entendida como a exaltação de um superúbere de uma vaca premiada), e por um tarugo de ferro enferrujado que adentra o Rio Guaíba nas proximidades da Usina do Gasômetro e que se intitula, pasmem, Olhos Atentos.
Nem os que foram perseguidos pelo regime militar escaparam destas maldades estéticas. O “monumento” que os lembra, erigido no Parque Marinha do Brasil, nos faz supor que eles continuarão atormentados ainda por muito tempo mais.
A gota d’água derradeira destas perversidades que acometem contra nós, pobres porto-alegrenses, foi a inauguração recente da Casa Monstro, situada na Rua dos Andradas. Pelo menos o autor, um jovem paulista, enfim alguém sincero no ramo, não a escondeu atrás de um título esotérico ou poético: é monstruosa, sim!
Trata-se da reprodução de um tumor que, inchado, é expelido pelas aberturas da construção e vem se mostrar aos olhos dos passantes, tal como se fora um abdômen de um canceroso recém aberto pelo bisturi de um cirurgião. Como se vê, uma maravilha!
Minha interrogação, depois de passar rapidamente os olhos sobre este vale de horrores que nos circunda, é por que Porto Alegre, cidade aprazível, moderna, povoada por gente simpática, habitada pelas mulheres mais belas do país e que abrigou artistas como Vasco Prado, Xico Stockinger e Danúbio Gonçalves, termina por excitar o pior lado de muitos que por aqui vêm expor?
Dizem-me que eles deixam estas abominações como doação (por não encontrarem compradores e não quererem arcar com o translado) e a infeliz prefeitura, constrangida, não tem como lhes dizer não.
Faço desde já um apelo ao secretário municipal da Cultura, Sergius Gonzaga, se este ano tal ameaça se repetir, mobilize-se. Levante recursos, promova uma ação entre os amigos da cidade para despachar tais coisas para qualquer outro lugar. Senão, peça socorro à ONU. Porto Alegre, aliviada, lhe será eternamente agradecida.

Jornal Zero Hora, Porto Alegre, RS - 25 de Outubro de 2009

* Nascido em 1944, é professor de História e Mestrando na UFRGS, responsável pelo Projeto Cultural do Curso Universitário. Escreveu 8 livros (*) e mais de 40 polígrafos, a maioria sobre História e História das Idéias Políticas. É professor do Curso de Jornalismo Aplicado da RBS-RS e palestrante da AJURIS-RS. Fez o Curso de Língua e Cultura alemã em Berlim em 1986, onde foi palestrante na Universidade Livre. Representou o Brasil na Feira Internacional do Livro de Jerusalém, em 1991. É articulista da Zero Hora-RS na página de “Opinião”, colaborador do Caderno de Cultura ZH e, também, foi comentarista de assuntos internacionais, culturais e políticos do programa “Câmera 2” na TV Guaíba-RS.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Esculturas no Goethe


















Abertura: 20 de outubro de 2009, às 19h
Local: Galeria do Goethe (24 de outubro, 112 - Porto Alegre
Visitação: 20 de outubro a 12 de novembro, de segunda a sexta, das 10 às 20h. Sábado, das 10 às 12h
*As esculturas dos artistas portoalegrenses foram selecionadas pelo júri da 10ª edição do concurso de artes plásticas do Goethe-Institut Porto Alegre.


  
Arte como questão
No cenário artístico contemporâneo, no qual freqüentemente os artistas tendem a ativar o lugar e o contexto de suas obras, é habitual serem expostos diversos procedimentos que levantam questões, não somente em relação à arte e seus limites, também no que diz respeito às fusões entre a arte e a vida. Os dois trabalhos que se dispõem nesta exposição surpreendem. Oferecem, em um único tempo, duas vertentes para se perceber a arte no espaço. Muito além disso, levam a centrar a atenção em  aspectos que extrapolam a insuficiente aproximação retiniana;  formulam, cada obra a seu modo, problemas, aqueles que perturbam nossos hábitos perceptivos, ao testarem, por uma atitude experimental, outras formas de materializar o pensamento crítico em meio à produção de arte.
Leonardo Fanzelau e Túlio Pinto trazem neste âmbito, cada um a seu modo, obras nutridas de uma sutil complexidade; qualidade esta rara em um mundo artístico afeito ao jogo fácil das imagens, inseridas em um circuito que muitas vezes absorve passivamente qualquer manifestação, em ausências de uma atenção mais criteriosa dos fatos artísticos.  Aqui ao contrário, as obras colocam-se elas mesmas como discussão sobre a natureza dos trabalhos, sobre seus materiais e o lugar no qual intervém, também sobre seu potencial de investigação.
Uma escada tripartida colorida, daquelas que tingem de vivos matizes o cotidiano das praças, subverte na exposição a banalidade dos playgrounds de tantas crianças felizes.  Diversão sem fim” ganha no novo espaço (que não é o seu próprio), um trágico e irônico destino, ao tornar-se um instrumento de aprisionamento, pois ao alto do brinquedo balançam astuciosas algemas.  A arte de Leonardo Fanzelau inquieta a lógica das coisas e de seus lugares, rejeita convenções, traz à luz o absurdo. É obra na qual o autor se vale de objetos originalmente desprovidos de pretensão artística, tal como Duchamp buscou em seus longínquos readymades. Mas este jovem artista vai além dessas referências: abala as relações funcionais destes artefatos contraditórios, pois juntos mostram-se incompatíveis em suas funções. O prazer e a liberdade que os brinquedos geram, recusam, por sua vez, a prisão ou qualquer coerção. É uma prática de desconexão e conduz o espectador, neste processo, ao nível da ideia. Traz uma sutil latência de problemas formulados em relação à nossa experiência conhecida do mundo.
Como contraponto, emerge no mesmo espaço expositivo, um outro tipo de discussão. A proposta de Túlio Pinto debate questões espaciais e de território dentro da galeria, mas em especial, rasga a percepção habitual do sítio conhecido em direção à fisicalidade dos materiais. Em meio à dominante virtualidade que constitui a cultura tecnológica dos nossos tempos, os trabalhos deste artista projetam com vigor e como questão essencial, a matéria no mundo. A desconexão que Leonardo apresenta em relação à ideia em sua arte, ocorre de modo diverso na instalação de Túlio; este faz eclodir uma visível tensão na substância física dos elementos que situa no espaço.
Este último trabalho força a natureza, não tanto a ideia, coloca em xeque a gravidade, não sua temática, inquire sobre as cargas físicas da matéria e as dilacera, não sobre seus usos. Interroga também sobre os limites espaciais e, neste processo, sobre os limites da própria arte. É obra na qual também se chega a duvidar sobre a familiaridade das nossas experiências perceptivas, tal como na de Fanzelau, mas por sentidos diversos: esta última pelo que nossa cultura nos faz conhecer sobre os objetos e seus empregos, a outra, pelo que se tem consciência dos fenômenos materiais e de sua conduta na natureza.
Ambos trabalhos provém de processos geradores de desfamiliarização e de um poético estranhamento, ao iluminarem caminhos para se pensar a arte hoje.
Através de um alto potencial de criticidade e simultâneo conteúdo poético, compreendem ambos a arte como questão. Trazem a chance de partilhar um valioso espaço de trocas, indagações e afeto em relação às experiências da vida através da arte, as que estas duas propostas artísticas sabiamente  nos propõem e nos envolvem.                                                                                                                
Mônica Zielinsky - Setembro de 2009”
 
 

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Convocatória de Textos - Ed. Outubro/Novembro

A revista eletrônica Panorama Critico abre a convocatória para envio de textos, artigos e/ou entrevistas referentes ao campo da produção contemporânea em Artes Visuais para publicação na próxima edição. Para a edição #03 (a ser lançada em Outubro/Novembro), o envio de material deve ser feito até o dia 05 de outubro de 2009. Para mais informações sobre as condições de envio podem ser lidas nos termos de uso do site da revista

Para informações mais detalhadas, contate-nos:

Para envio de textos e/ou artigos:

sábado, 12 de setembro de 2009

Panorama Crítico #02 - Agosto /Setembro

Já está disponível a segunda edição da revista Panorama Critico. Esta edição, como Panorama, apresentamos a tradução do texto do artista e crítico de arte norte-americano Peter Plagens, Arte contemporânea revelada (Contemporary art uncovered). Em Artigos, temos a primeira parte do dossiê Documentos de Trabalho¹ apresenta dois textos de Flávio Gonçalvez e James Zortea. A Entrevista desta edição, realizada e enviada por Lilian Maus, é com a artista Maria Helena Bernardes. Na seção de Ensaios, apresentamos um pequeno dossiê de três textos² de Ismael Monticelli, Vitor Butkus e de Alice Souza

¹ desenvolvidos pelo grupo de pesquisa “Dimensões Artísticas e Documentais da Obra de Arte”
² produzidos durante a disciplina de Introdução a Museografia do curso de Artes Visuais da UFRGS, ministrada pela Profª. Drª. Ana Maria Albani de Carvalho.